sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sobre a Holding para os Portos


A ideia de alterar o modelo de governação para os portos portugueses não aparece agora pela primeira vez.

Recordo-me que ela foi admitida durante os Governos PSD/CDS de Durão Barroso e Santana Lopes tendo sido estudada na altura a possibilidade de se criar uma “holding” para os portos.

Julgo que as principais razões que motivaram esse estudo eram fundadas na percepção que face as instalações portuárias disponíveis na altura e aos novos projectos previstos nos planos de investimento das administrações portuárias se estaria eventualmente a caminhar para um excesso de capacidade oferecida.

Esta situação poderia levar à duplicação de alguns investimentos públicos e portanto seria recomendável que houvesse uma entidade (Holding) que pudesse fazer a respectiva coordenação.

Jugo que havia também a convicção que se poderiam obter ganhos de competitividade por via de um eventual aumento de dimensão crítica.

A ideia era tentar fazer um único porto com dimensão relevante em termos europeus em vez de vários pequenos portos insignificantes mesmo à escala Ibérica.

Com uma solução deste género seria de esperar a redução dos custos habituais sempre que existem fusões e aquisições (redução de efectivos, diminuição de prestadores de serviços, concentração de serviços …..).  

Por outro lado seria necessária apenas uma única política comercial e de marketing e haveria uma harmonização natural dos diversos sistemas de informação.

Ainda hoje desconheço as razões pelas quais esta solução nunca chegou a ser aprovada em Conselho de Ministros mas a verdade é que a tese enunciada não vingou.

Eu também nunca a defendi.

Com o actual Governo o assunto voltou à baila novamente.

Só que desta vez parece que apenas se estão a considerar duas possibilidades: a criação de uma “holding” como organismo de cúpula para coordenar as administrações portuárias ou em alternativa a criação de uma sociedade anónima de âmbito nacional, para gerir todo o sistema portuário do Continente.

Desconheço qual a motivação para avançar já com tal reforma mas admito que possam existir alguns compromissos com a troika nesse sentido.

Na minha opinião e julgo que na opinião de alguns agentes deste sector, a ideia de alterar tão profundamente o modelo de governação dos portos parece-nos inoportuna nas circunstâncias actuais que não se compadece com experimentalismos. 

Ela vai introduzir mais centralidade o que vai implicar:

  • menos concorrência inter-portuária e intra-portuária com os respectivos inconvenientes em termos de eficiência, qualidade de serviço e preço final para os consumidores (armadores e donos das cargas).

  • mais dificuldade em gerir a relação entre os portos e as autarquias onde estão inseridos. Não nos podemos esquecer que o porto de Lisboa tem jurisdição sobre onze concelhos diferentes, um dos quais com grande peso politico (Lisboa). O porto de Leixões tem um entrosamento muito especial com o tecido empresarial do Norte que desconfia e reage negativamente a uma eventual subordinação perante uma entidade de âmbito nacional, sediada em Lisboa.

Note-se ainda que as Administrações Portuárias apresentaram todas resultados líquidos positivos num total a rondar os 20 milhões de euros. “Mexer” em organizações que conseguem ganhar dinheiro mesmo nestas alturas de crise parece-me muito arriscado.

Uma reestruturação desta ordem vai criar instabilidade em processos que já estão consolidados e também junto dos quadros mais qualificados (que já são muito escassos nesses sector) podendo haver transferência e/ou desaparecimento de “know how” crítico em termos estratégicos para as próprias empresas e para um país que se quer voltar de novo  para o mar.

Não tenho conhecimento de algum país que tenha optado por um modelo de governação parecido com que se pretende vir a implementar.

Antes pelo contrário, o que é muito comum é haver uma ligação estreita entre administrações portuárias autónomas e autarquias locais.

No conselho de administração dos portos do Norte da Europa é frequente haver representantes das autarquias e das associações industriais.

Em Espanha a situação relativa ao modelo de governação dos portos está estável há muitos anos. Julgo que o organismo central de coordenação da política portuária chamado “Puertos del Estado” é uma entidade administrativa dependente do Ministério do Fomento, bem diferente pela sua natureza jurídica de uma holding e por isso não consolida contas nem partilha recursos com as autoridades portuárias.

Tal como já existe em Portugal com a APP, também é frequente no estrangeiro, a existência de um normal associativismo entre alguns portos com vista a prossecução de alguns objectivos que lhes sejam comuns.

Reestruturar apenas com o objectivo de reduzir o número de administradores faz pouco sentido neste caso. O peso da sua remuneração actual na estrutura de custos das administrações portuárias é inexpressivo. Todavia se fosse muito importante, em termos políticos, dar um sinal nesse sentido (atendendo a eventuais compromissos com a troika) uma opção poderia ser haver presidentes do conselho de administração comuns a várias administrações portuárias. Por exemplo: um Presidente comum para os portos de Leixões e de Aveiro, um Presidente comum para os portos de Lisboa e de Setúbal, um Presidente comum para o porto de Sines e eventualmente para os portos do Algarve (Faro e Portimão). Não devem ser menosprezados aspectos ligados à segurança (savety e security) onde deve ser garantida permanentemente uma política de tolerância zero para acidentes - um único director de porto poderá não ter nem capacidade nem tempo para o fazer (a carga administrativa é muito grande).

Reestruturar para evitar duplicação de investimentos, pode ser superado através da monitorização dos planos de actividades e orçamento das AP’s por parte da tutela técnica reforçando alguns dos seus serviços técnicos.

Reestruturar por questões comerciais e de marketing pode não fazer sentido: os segmentos de carga, mercados - alvo e vocação natural de cada porto são diferentes de uns para os outros por isso vão exigir sempre políticas comerciais e de marketing diferentes.

Reestruturar para darmos a ideia de sermos vistos como um único porto de dimensão Europeia é olhar apenas para o somatório das toneladas movimentadas e esquecer-nos da importantíssima interacção dos portos com as autarquias e as comunidades ribeirinhas e que os clientes dos portos gostam sempre de poder escolher entre várias alternativas.

Finalmente, por natureza e convicção pessoal entendo que o enfoque deve ser posto nos clientes que necessitam antes de mais de uma boa oferta de serviços portuários a preços competitivos.

Acredito que nesta actividade tal como em muitas outras só através da concorrência se atingirá esse objectivo.

Tentar ganhar competitividade por via da concentração poderá ser vir a ser “um barato que sai caro”.

Oxalá me engane.