sábado, 26 de novembro de 2011

Comboios de mercadorias para a Europa? em que bitola?

Existe uma polémica à volta da bitola a utilizar nos comboios de mercadorias em Portugal.

Nas novas linhas de caminho de ferro que ligam a Portugal a Espanha está prevista a utilização da "bitola europeia" a partir do Poçeirão,  mas ao que parece os Espanhóis querem manter, para já, a "bitola ibérica" - excepção feita para a recente linha Barcelona-França.

Se Portugal decidir avançar já para a mudança de bitola de "ibérica" para "europeia", aproveitando eventuais fundos comunitários disponíveis para o efeito (85/95%), e sem estar minimamente coordenado com Espanha quanto a datas e percursos, corremos o risco de vir a ter sérias dificuldades para chegar a Madrid e eventualmente a França.

Por outro lado a possibilidade de não ligar os portos nacionais (também em "bitola europeia"), assusta alguns agentes nacionais do sector que temem duas coisas: - maior dificulade em poder enviar ou receber comboios para o centro da Europa, e que o porto de Algeciras possa começar a abastecer Portugal quando o que se pretende é que sejam os portos de Setúbal e de Sines a poder eventualmente abastecer a região de Madrid.

Na minha opinião é necessário chamar a atenção para alguns conceitos e considerações:

1. Em teoria, o transporte ferroviário é competitivo apenas entre determinadas distancias.



Nos Estados Unidos D1-D2: entre 500 kms e 1.500 kms e na Europa D1-D2 entre: 120 Kms e 600 kms (porque existem mais vias navegáveis).

2. As cargas de "baixo valor" procuram fundamentalmente transportes de baixo custo e não velocidade.

3. Para garantir baixo custo deveriam  ser utilizados comboios mais compridos e mais pesados.


Nos Estados Unidos existem comboios com perto de 5 Kms de comprimento, com contentores sobrepostos "double stack". Na Europa os comboios têm no máximo 750 metros e não existe a possibilidade de "double stack" por causa dos túneis, das pontes e da electrificação de algumas linhas. Os comboios de mercadorias europeus, têm capacidade para transportar até 50 contentores. Em Portugal os comboios que saem do porto de Sines estão limitados pelo terminal a um comprimento de 450 metros. Mesmo assim são necessárias 2 locomotivas por causa das pendentes nalgumas partes da linha.

4. As linhas de caminho de ferro para mercadorias, quando utilizadas com grande intensidade, deveriam ser preferencialmente exclusivas, e serem construídas e/ou reconvertidas com os menores custos possíveis (expropriação, construção, carril, vedações....) sendo no entanto fundamental garantir boas capacidades eixo/ton e pendentes apropriadas. O fundamental é repassar um mínimo de custo associado à infra-estrutura de modo a que o operador ferroviário possa oferecer aos seus clientes preços mais baixos.

Tendo em consideração os pontos anteriormente referidos, parece-me importante reconhecer o seguinte:

  • Muito dificilmente poderemos aspirar a fazer comboios de mercadorias a partir dos nossos portos para os centros de consumo da Europa, pelo menos em boas condições de competitividade - as distancias são demasiado longas para concorrerem com o transporte marítimo. 
  • O nosso objectivo poderia ser Madrid e eventualmente Barcelona (embora mais difícil porque já tem um porto muito competitivo). De salientar que os portos portugueses estão mais ou menos equidistantes relativamente a Madrid quando comparados com alguns portos Espanhóis importantes (Valencia e Barcelona). 
  • A região da Estremadura está eventualmente à distancia ideal para fazermos chegar algumas das cargas dos nossos portos por via férrea. Mesmo com o alargamento do canal de Panamá e com a expectativa do porto de Sines poder vir a receber navios de maior dimensão, estou convencido que a opção principal será a de fazer "transhipment" para navios de menor dimensão, alguns deles (se não mesmo a maioria) destinados a portos Espanhóis. As companhias de navegação não vão querer perder as suas cargas para outros, por isso, sempre que puderem vão procurar que o "transhipment" seja feito para navios "feeders" também das suas linhas.
  • Se não houver garantia de financiamento europeu específico para a transição para "bitola europeia" (85/95%)  seria mais lógico completar a ligação ferroviária entre Évora / Elvas ainda que em "bitola ibérica".

Gostava ainda de referir, que no meu entender é muito remota a possibilidade de o porto de Algeciras poder vir a abastecer os nossos mercados por via férrea - os indícios apontam para isso - são muito poucos os comboios que saem hoje de Algeciras para os diversos destinos, continuando a melhor opção ser o recurso aos navios "feeders".

Por tudo isto tenho a opinião de que a transição para a "bitola europeia" no transporte ferroviário de mercadorias em Portugal continua a ser um objectivo mas apenas deve ocorrer em simultâneo com Espanha, quando houver financiamento comunitário específico garantido e condições financeiras por parte dos dois países.


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