Portugal tem uma posição geoestratégica privilegiada no que diz respeito ao transporte marítimo: – está no cruzamento das principais rotas mundiais. O potencial de captação de tráfego é por isso enorme desde que existam infra-estruturas portuárias com (um mínimo) de qualidade.
Portugal ocupa um modesto 47º lugar no ranking da competitividade no respeita à qualidade das suas infra-estruturas portuárias (*). É um valor que contrasta muito com o 8º lugar que ocupam as nossas infra-estruturas rodoviárias.
Ao estarmos classificados a meio da tabela, ficamos logo a perder em relação a metade dos concorrentes, (e isto é preocupante).
Os portos portugueses têm uma grande importância para as economias locais onde estão inseridos - podem representar até cerca 10% do PIB regional.
Em Portugal o investimento público no sector dos portos pode ser altamente compensador para o pais – trata-se de uma realidade que tem sido muito pouco divulgada.
Estudos académicos (**) evidênciam-nos que em termos ecomométricos: - cada um euro de investimento público no portos induz, no longo prazo, um aumento no investimento privado de cerca de 84 euros! - Em matéria de criação de emprego – no total da economia, obviamente – a cada milhão de euros investido nos portos corresponderá a criação de 4.800 novos postos de trabalho! - E, no que respeita aos efeitos sobre o produto, (este aspecto é muito importante nos dias de hoje) por cada euro de investimento público nos portos haverá um crescimento da ordem dos 107 euros, com uma taxa de rentabilidade de 30,8 por cento.
Em suma: Em Portugal temos uma situação geográfica privilegiada, para desenvolver actividades num sector que ainda tem falta de competitividade mas que tem grandes potencialidades quer ao nível do retorno dos investimentos quer ao nível do desenvolvimento económico das regiões onde está inserido.
Por isso julgo que é nossa obrigação ir sensibilizando os diferentes Governos para esta realidade.
Os portos são importantes e estratégicos para o nosso país, por isso organicamente faz todo o sentido que sejam enquadrados na tutela de um Ministério dos Transportes.
Parece-me lógico que a política portuária deva fazer parte da política de transportes marítimos que por si deve fazer parte da política geral de transportes. Porquê? Porque os portos são um elemento preponderante na formação dos preços e dos custos do transporte marítimo e porque por exemplo o desenvolvimento do transporte ferroviário de mercadorias vai depender muito do desenvolvimento dos portos.
Trata-se portanto predominantemente de assuntos relacionados com transportes - o mar será sempre algo muito mais abrangente e transversal a tudo isto.
Quanto às orientações de políticas portuária, na minha opinião, deveriam ser simples, claras e estabelecer um quadro estável com os agentes económicos:
Tenho defendido três grandes linhas de acção para a politica portuária:
1) Concorrência e fiscalização de preços;
2) Auto-suficiência financeira das administrações portuárias;
3) Controlo, Rigor e Sustentabilidade financeira dos investimentos públicos portuários.
Acredito que é através da concorrência inter-portuária e intra-portuária que se conseguem obter ganhos de eficiência e consequentemente aumentar o volume de cargas movimentadas.
No caso concreto das administrações portuárias deveriam permanecer autónomas, concorrer umas com as outras e promover uma leal e sã concorrência entre os operadores que nelas operam. Isto apesar de todas elas terem um mesmo accionista – o Estado.
A concorrência, regra geral, beneficia os clientes finais, enquanto que a concentração (em nome de uma necessidade de massa crítica), tende a beneficiar sobretudo os accionistas e os seus prestadores de serviços directos. Neste caso a opção terá de ser claramente a favor dos clientes que devem poder escolher entre vários serviços portuários alternativos.
O posicionamento estratégico que Portugal deve ter no que diz respeito à vocação das suas infra-estruturas portuárias deve decorrer essencialmente de agentes económicos privados que actuem em concorrência.
A regulação e ou desregulação deve actuar, entre outros: sobre os preços, tarifas, obrigações de eficiência, qualidade de serviço e condições de acesso às diferentes actividades.
Os diferentes preços e tarifas devem estar sobre observação permanente.
Caberá naturalmente às administrações portuárias fiscalizar as tarifas dos diferentes operadores e à tutela fiscalizar os tarifários das administrações portuárias.
Sobre este aspecto em concreto gostava de chamar a atenção para o seguinte: Actuar sobre os preços e tarifas finais será sempre muito difícil porque existem variáveis que contribuem para a sua formação que “por e simplesmente” não se têm conseguido controlar. Estou-me a lembrar: - da “estiva” muitas vezes concertada internacionalmente e que não tem facilitado avanços na legislação do trabalho portuário; - das diferenças de interpretação das leis quanto a tarifários (também muito frequente nos portos espanhóis após a implementação da lei dos portos); - e de alguns hábitos de “pricing” mais ou menos pré-estabelecidos pelos operadores internacionais.
Quanto processos de reorganização, fusão, extinção ou de concentração de organismos públicos deste sector, no que diz respeito ao caso concreto das administrações portuárias, julgo que não é o momento apropriado para se fazerem alterações de fundo.
Relembro que a maioria das administrações portuárias apresentam resultados líquidos positivos e libertam os recursos necessários para levarem a cabo os seus planos de investimentos. O que é uma excepção à regra que se tem verificado em empresas do sector dos transportes em geral.
Manter resultados líquidos positivos e estabelecer uma política de distribuição de dividendos permanentes ao accionista Estado deveria ser um objectivo. Paralelamente, e se for o caso disso, suster e diminuir gradualmente o respectivo nível de endividamento bancário.
As administrações portuárias devem por isso preservar a sua autonomia e posicionam-se cada vez mais como entidades facilitadores de negócios tentando captar investimentos privados para sua área de jurisdição e de influência.
Para mim não fará sentido neste momento a criação de uma holding para os portos nem qualquer outro tipo de agrupamento de portos para alem do normal associativismo. A tentação de re-estruturar vai ser grande, mas na minha opinião os portos devem manter uma ligação natural e estreita com as autarquias onde estão inseridos. Introduzir mais centralidade neste processo não traria para já nada de bom na por vezes "bem difícil" relação dos portos com as cidades: - e chamo a atenção que só o porto de Lisboa tem de lidar diariamente com 11 municípios diferentes.
Um outro aspecto a referir é que nesta altura valeria a pena identificar e avaliar a sério o património das administrações portuárias. Particularmente o património que não esteja directamente afecto à actividade portuária e cuja gestão seja susceptível de poder vir a ser privatizada: - estou convencido que o potencial de geração de recursos financeiros seria enorme.
Quanto à questão investimentos : o controlo, rigor e sustentabilidade financeira dos investimentos públicos portuários pode, na minha opinião, fazer-se de duas maneiras:
Em primeiro lugar através da monitorização por parte da tutela dos planos de investimento das administrações portuárias. E em segundo lugar através da alteração da modalidade mais corrente de atribuição de licenças e concessões.
No caso da monitorização dos planos de investimentos será desejável começar a exigir estudos de viabilidade e analises custo benefício para todos os novos projectos. Será desejável também estabelecer medidas para se evitar a duplicação de investimentos públicos e eventuais excessos de oferta e de capacidade.
No caso da modalidade de atribuição de licenças e concessões devem ser considerados e incentivados investimentos privados de "concepção, construção e exploração" das respectivas actividades.
Para finalizar, e porque estamos falar de investimentos, uma chamada de atenção sobre a visão do actual Governo.
Segundo a imprensa o Plano Estratégico de Transportes prevê cerca 2.500 milhões de euros de investimento publico e privado nos portos. Ao que parece grande parte deste esforço financeiro será aplicado na construção de três novos terminais de contentores nos portos de Lisboa, Leixões e Sines.
A confirmar-se esta intenção, e tendo em conta aquilo que defendi anteriormente, espero sinceramente que estes projectos sejam correctamente avaliados do ponto de vista da sua viabilidade e que todos eles demonstrem ter o mérito suficiente para poderem ser implementados sem problemas.
Se tudo correr bem haverá certamente ganhos competitividade para nosso pais e mais crescimento económico no longo prazo.
----------------
(*) The Global Competitiveness Report 2010-2011
(**) Public investment in transportation infrastructures and economic performance in Portugal, Alfredo M. Pereira e Jorge M. Andraz.